Afeganistão: Cemitério de Impérios e a Nova Realidade Geopolítica na Ásia

Por IRMÃOS RUSSO

Depois de quase 20 anos, os EUA começam a retirar as suas tropas do Afeganistão, marcando o fim de uma invasão longa e com poucos resultados, o Afeganistão prova ao mundo que seu apelido ‘’o cemitério dos impérios’’ é mais que devido.

Mas por que os Estados Unidos decidiram invadir o Afeganistão? Qual foi a intenção? Qual foi o motivo? Para responder estas perguntas, temos que voltar um pouco no tempo.

Contexto Histórico

Montanhas afegãs. Crédito da foto: @henrydavin via Twenty20

Quase todas as grandes potências passaram por estas terras montanhosas: mongóis, britânicos, soviéticos e agora americanos.

Na época da guerra-fria, os Estados Unidos faziam de tudo para impedir o avanço do Comunismo ao redor do mundo e, em cada país, eles traçaram uma estratégia diferente.

Nos países europeus, eles ajudaram a reestruturar a economia através do plano Marshall, porque eles acreditavam que um país próspero economicamente rejeitaria o Comunismo/Socialismo.

Nos países islâmicos, eles promoviam o reavivamento do Islamismo, porque acreditavam que um país religioso rejeitaria o Comunismo/Socialismo.

Curiosamente, países ricos e seculares estão cada dia mais votando em partidos de Esquerda, enquanto países islâmicos estão livres da ameaça comunista/socialista, provando que religião e nacionalismo são armas mais fortes para vencer Marx que apenas crescimento econômico e prosperidade financeira.

 Em 1979, a União Soviética invade o Afeganistão para ajudar o governo comunista local contra insurgentes islâmicos conhecidos como mujahideens, financiados pelos americanos, sauditas e paquistaneses e, em 1989, depois de anos de luta armada, os mujahideens não foram derrotados e os soviéticos saem do Afeganistão desmoralizados e quebrados financeiramente: a aventura afegã custou vastos recursos financeiros.

União Soviética no Afeganistão. Crédito da Foto: Arnold Drapkin

Curiosamente, países ricos e seculares estão cada dia mais votando em partidos de Esquerda, enquanto países islâmicos estão livres da ameaça comunista/socialista, provando que religião e nacionalismo são armas mais fortes para vencer Marx que apenas crescimento econômico e prosperidade financeira.

Depois da saída dos soviéticos, o Afeganistão experimentou vários conflitos internos e guerras civis, até que finalmente, o Talibã (que significa alunos em árabe) toma o controle do país e instaura um regime teocrático.

Acontece que os mujahideens acreditavam na Jihad, que é a guerra santa, a expansão islâmica pela espada (ou ponta do fuzil), e planejavam continuar esta guerra além das fronteiras afegãs, e com isso o país se tornou um porto seguro para terroristas islâmicos ao redor do mundo e uma ameaça para os interesses americanos.

Em 2001, acontece o ataque às torres gêmeas e os EUA iniciam a sua guerra ao terror: o Afeganistão é invadido com o objetivo de livrar o povo afegão da ditadura islâmica, capturar Osama Bin Laden e implementar a democracia naquela nação.

Funeral. Crédito da foto: @henrydavin via Twenty20

Depois de 20 anos, o Talibã continua vivo, a democracia não se estabeleceu no país e os americanos estão voltando para a casa muito mais pobres, com muito mais dívidas e com uma China e Rússia revisionistas questionando a hegemonia americana, resumindo: os americanos saíram do país muito mais fracos e com mais problemas que quando entraram.

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Nova Realidade: A volta do Talibã ao poder

O Afeganistão tem um governo apoiado pela OTAN que controla as grandes cidades e a capital, mas os Talibãs controlam o resto do país e, ao que tudo indica, os Talibãs tomarão todo o país das forças governamentais, se assim o desejarem.

O Afeganistão é extremamente rico em minérios; mineradoras do mundo todo cobiçam as riquezas do país e, quando Bush invadiu o país, ele tinha em mente, além de trazer democracia, explorar os riquíssimos recursos naturais afegãos abrindo o país para que as gigantescas mineradoras multinacionais enriquecessem.

Com a iminente saída americana, a China já começou as suas negociações com o Talibã (pelo menos formalmente, todos sabiam que já o faziam antes) e, como resultado, o Talibã já deixou claro que vai proteger todos os investimentos chineses no país: as empresas chinesas serão as de facto donas dos minérios afegãos. A mesma China que destrói mesquitas no próprio país não tem nenhum problema em apertar as mãos de terroristas islâmicos, pois a China é o país mais pragmático do mundo (algo que o Brasil deveria aprender).

China e Paquistão serão os maiores ganhadores da saída americana; o Talibã não existiria sem o apoio do Paquistão e, com a volta do Talibã ao poder, o Paquistão ganha um país aliado como vizinho e os maiores perdedores serão os EUA e, principalmente, a Índia.

Crédito da Foto: @SteveAllenPhoto via Twenty20
Crédito da Foto: @Mehaniq via Twenty20

Os Estados Unidos porque os americanos gastaram rios de dinheiro no seu projeto de nation-building: tentar reconstruir o país de acordo com os moldes liberais-democratas, algo em que, infelizmente, falharam miseravelmente. Enquanto os americanos gastavam tempo e dinheiro no Afeganistão, China e Rússia se fortaleciam para, em breve, desafiar a hegemonia global americana.

 A Índia porque os indianos investiram muito no atual governo afegão; eles não querem um Afeganistão aliado do Paquistão e da China e, com a volta do Talibã, a Índia, além de ver os seus investimentos serem perdidos, se vê ainda mais cercada geopoliticamente na região.

Se você olhar o mapa do subcontinente indiano, perceberá  que a Índia está cercada por aliados da China: Paquistão, Sri Lanka e Nepal. O único aliado que restou foi Bangladesh (que também tem boas relações com a China) e, de certa forma, o Mianmar.

Mianmar é um caso à parte: os militares de Mianmar que hoje controlam o país meteram muita bala nos rebeldes comunistas apoiados pelo partido comunista chinês no passado, contudo a China tem investido pesadamente no país e com a tomada do poder pelos militares, a China tem dado todo o apoio político e econômico ao país; a Índia sabe muito bem disso, por isso não criticou o governo de Mianmar quando o governo de Aang Sang Suki foi retirado do poder pelas forças armadas.

 Com a saída americana do Afeganistão, a configuração geopolítica da Ásia mudará ainda mais: a influência chinesa na região será aumentada e fortalecida e o acirramento da rivalidade  entre China e Índia atingirá níveis mais elevados.

 A Rússia é um caso à parte também: tanto a presença americana do Afeganistão quanto a sua saída representam riscos e oportunidades.

A presença americana no Afeganistão, de certa forma, impedia que o Afeganistão se transformasse em uma fortaleza islâmica que envia terroristas aos países vizinhos, começando pela Ásia Central, e futuramente ameaçando a própria Rússia.

Por outro lado, a saída americana do Afeganistão representa o declínio do poder global americano: os Estados Unidos estão recuando e isso é extremamente positivo para a Rússia (apesar que os EUA terão mais recursos para se focar na Europa contra a influência russa).

O acirramento das tensões entre Índia e China favorece muito a Rússia, pois tanto a China quanto a Índia veem na Rússia o único ator capaz de desequilibrar a balança de poder entre os dois; a Índia tem se aproximado ainda mais da Rússia para resolver o impasse afegão.

Uma Nova Realidade Geopolítica

Crédito da Foto: @_AkG via Twenty20

O cenário geopolítico está passando por transformações tectônicas: a China tem avançado, os Estados Unidos têm recuado e alguns países como a Índia estão percebendo que eles precisam se fortalecer e desenvolver o seu próprio plano e objetivo nacionais, porque a PAX AMERICANA está com os dias contados. O futuro pertencerá àqueles países que desenvolvem a sua própria estratégia geopolítica e não dependem uns dos outros.

Todas estas movimentações internacionais podem servir como exemplos para nós: o Brasil precisa urgentemente desenvolver a sua própria estratégia geopolítica, o domínio global americano está com os dias contados, os americanos estão em decadência, e isso abre uma janela de riscos e oportunidades.

Se agirmos agora e encararmos a nova realidade geopolítica mundial  como oportunidade, seremos senhores do nosso próprio destino, caso contrário sofreremos o risco de continuarmos colonizados, desta vez pela próxima potência dominante, mais provavelmente a China, e com isso ,permaneceremos na condição  de um país medíocre, com um povo dominado. Nossos descendentes pagarão o preço da nossa inércia.

Os ônibus da história estão passando aceleradamente por nós e de maneira descontrolada;  alguns países tomarão o assento, outros o volante, e quem tomar o volante em suas próprias mãos conduzirá o restante.

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2 Comments

  1. Concordo plenamente que o Brasil precisa mudar urgentemente sua postura no cenário “geopolítico”; o problema, óbvio e como sempre, são os políticos corruptos, stf corrupto, instituições aparelhadas, etc., que não servem aos interesses nacionais e sim estrangeiros, trancando o desenvolvimento do País. Pra mim, o primeiro passo para essa “nova era” da história do Brasil seria algo semelhante ao que fez o presidente da Tunísia…

    1. Olá Éder, realmente, o Brasil tem muitos obstáculos que travam o crescimento do país, infelizmente você está coberto de razão, será que o governo precisa ter uma postura mais firme?

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